PAULO MELLO
Da redação
O músico são-carlense David Tanganelli foi o entrevistado do dia no programa Primeira Página no Ar, da São Carlos FM, nesta segunda-feira (26), onde apresentou ao público os detalhes do projeto social “Blues na Escola” — iniciativa que alia música, educação e cidadania em escolas públicas, sobretudo em regiões mais vulneráveis.
Criado em 2015, o projeto nasceu a partir de uma experiência internacional marcante. Convidado a participar do Festival Internacional de Blues de Coquimbo, no Chile, Tanganelli vivenciou um contexto de solidariedade após um tsunami que atingiu a costa chilena e deixou centenas de famílias desabrigadas. A pedido da organização, além do palco oficial, o músico passou a se apresentar também nas ruas para o público afetado pela tragédia. “Aquilo me tocou profundamente. Foi ali que pensei: isso precisa ir além dos palcos, precisa chegar às escolas”, relatou.
UM WORKSHOW PARA FORMAR OUVINTES E CIDADÃOS
O formato do Blues na Escola é definido por Tanganelli como um workshow: uma combinação de apresentação musical, oficina educativa e conversa direta com os estudantes. Com banda completa, o músico apresenta instrumentos como harmônica, violão, guitarra, contrabaixo e bateria, enquanto explica a origem da música afrodescendente, dos work songs e spirituals ao gospel, até o surgimento do blues no sul dos Estados Unidos.
“Tudo está interligado. A moda de viola, o repente, o sertanejo raiz, tudo isso também é blues. É gente contando sua história, sua dor, sua esperança”, explicou. A partir dessa base, o músico conecta o blues a estilos mais próximos da realidade dos jovens, como o rock, a soul music, o R&B, o funk norte-americano e artistas contemporâneos como Michael Jackson e Bruno Mars. “Sem o blues, nada disso existiria”, afirmou.
O diferencial, segundo ele, está na interação e no entretenimento. “Não é uma aula tradicional. Tem música, performance, dança, conversa. Eu pergunto o que eles escutam, e a partir disso faço as ligações. Quando eles percebem que aquilo que gostam tem uma raiz mais profunda, o interesse aparece.”
IMPACTO REAL DENTRO DAS ESCOLAS
Ao longo de mais de dez anos, o projeto já passou por escolas de São Carlos, Ibaté, Corumbataí e diversas cidades do interior paulista, além de Minas Gerais, Piauí e Mato Grosso do Sul. Também foi apresentado na Argentina, Chile, Equador e Costa Rica. Em 2018, o Blues na Escola foi tema do Primeiro Congresso Latino-Americano de Blues, realizado em Quito, no Equador.
Tanganelli relatou episódios que ilustram o impacto do projeto. Em uma escola periférica, alunos considerados “desinteressados” pelos próprios educadores foram os que mais se envolveram após a apresentação. “Eles nunca tinham visto uma guitarra de perto, nunca tinham ouvido uma gaita tocada ao vivo. No final, vieram perguntar os nomes dos artistas para pesquisar. Aquilo me mostrou que vale a pena.”
Segundo o músico, embora seja difícil mensurar números, milhares de estudantes já tiveram contato com o projeto. “Foram muitas escolas, muitas turmas. Cada experiência deixa uma marca.”

CARREIRA INTERNACIONAL E RECONHECIMENTO
Com cerca de 18 anos de carreira, David Tanganelli soma seis álbuns autorais lançados, com composições em português, inglês e espanhol, transitando entre blues, soul, R&B e funk. Ele já se apresentou em aproximadamente nove países da América Latina e da Europa e prepara o lançamento de um novo álbum, com nove faixas autorais, que chegará ao público tanto nas plataformas digitais quanto em LP — formato que o artista faz questão de manter.
Harmonicista, cantor e compositor, Tanganelli é artista da marca alemã Hohner, a mesma que patrocina nomes como Stevie Wonder e Steven Tyler. “Estar no site da marca ao lado de artistas que sempre admirei já é uma grande conquista”, afirmou.
APOIO AINDA É DESAFIO
Apesar do reconhecimento, o Blues na Escola segue sendo viabilizado, em grande parte, de forma voluntária. “Não temos patrocínio fixo. São músicos parceiros que deixam seus trabalhos para participar. Não é cachê artístico, é apoio para viabilizar logística e tempo”, explicou. Em alguns casos, o projeto acontece em parceria com festivais de blues, que oferecem a contrapartida social antes dos shows.
A proposta, segundo o músico, é que pessoas físicas ou jurídicas possam “adotar” escolas, garantindo a continuidade das ações. Interessados podem entrar em contato pelos canais do projeto ou diretamente com o artista em suas plataformas digitais: @davidtanganelli.
CULTURA COMO RAZÃO DE SER
Questionado sobre a motivação para seguir com o projeto, Tanganelli foi direto: “Chega um momento em que você precisa de uma razão. A música é a minha vida, mas ver essa molecada sendo bombardeada por tanta coisa ruim dói. Se a gente consegue abrir uma janela, mostrar outras possibilidades, já valeu.”
Ao final da entrevista, o músico reforçou a importância de ampliar o acesso cultural no país. “O Brasil é riquíssimo musicalmente, mas muita coisa está guardada. Precisamos abrir essas gavetas e mostrar para a nova geração. Investir neles é investir no futuro.”
A entrevista encerrou-se com agradecimentos mútuos e o compromisso de novas parcerias. “Espaço como esse faz toda a diferença”, resumiu o músico, ao se despedir dos ouvintes da São Carlos FM.
Assista a entrevista na íntegra:
















