A greve dos servidores públicos municipais de São Carlos entrou em um novo e delicado capítulo nesta segunda-feira (13), com a confirmação do movimento paredista pelo vice-presidente do Sindspam (Sindicato dos Servidores Público e Autárquicos Municipais de São Carlos, Dourado e Ibaté), Lucinei Alves Custódio, o Ney, durante entrevista ao programa Primeira Página no Ar, da São Carlos FM. Em uma conversa marcada por críticas à condução das negociações por parte da Prefeitura, o dirigente sindical afirmou que a paralisação já está em andamento, dentro dos limites legais, e reforçou que a categoria continua aberta ao diálogo para tentar encerrar o impasse.
Logo no início da entrevista, Ney foi direto ao responder sobre a situação do funcionalismo. “O servidor está em greve. Estamos em greve, estamos procurando respeitar os limites legais para poder realizar essa greve e estamos tentando conversar com a prefeitura. Estamos em greve, mas estamos abertos ao diálogo para que a gente possa sair dessa situação”, declarou. Segundo ele, o sindicato notificou formalmente o Executivo com 72 horas de antecedência e, no mesmo ato, pediu a reabertura da mesa de negociação, mas não houve nova convocação por parte da administração municipal.
Um dos pontos centrais da entrevista foi a polêmica em torno da suposta contraproposta do sindicato. Ney afirmou que houve confusão na interpretação dos documentos e explicou que, embora a assembleia tenha discutido percentuais e alternativas, não houve protocolo formal de uma contraproposta porque o objetivo, naquele momento, era rejeitar a proposta da Prefeitura e deflagrar o estado de greve. “O que a gente pediu para a prefeitura é: vamos retomar a negociação para a gente poder levar isso na mesa. A partir do momento que a gente fecha na mesa, aí sim a gente protocola”, disse. Ele reconheceu que o tema dos 7% de reajuste foi debatido na assembleia, mas ressaltou que isso não se transformou em contraproposta oficial, justamente porque o sindicato aguardava a retomada das conversas.
Ao detalhar as razões da insatisfação dos servidores, o dirigente sindical apontou uma série de frustrações acumuladas desde o ano passado. Entre elas, citou o não encaminhamento do Plano de Carreira à Câmara Municipal no prazo anteriormente prometido pela própria Prefeitura. “No papel está escrito que implanta em janeiro se houver disponibilidade financeira, se houver disponibilidade orçamentária, se houver condições jurídicas. Então, continua sendo um caso abstrato, que a gente não tem certeza se vai acontecer”, afirmou. Ney também criticou a proposta de substituição da cesta básica por um cartão de R$ 400, valor que, segundo ele, está muito abaixo do custo real dos 36 itens atualmente recebidos pelos servidores. “O servidor não quer isso. O servidor prefere a cesta ou que ele dê um cartão no valor da cesta”, pontuou.
Outro tema de destaque foi a liminar obtida pela Prefeitura no Tribunal de Justiça, determinando a manutenção de 70% do efetivo em atividade. Ney classificou a decisão como uma medida que altera a estratégia inicial do sindicato. Segundo ele, antes mesmo da ordem judicial, a entidade já havia decidido manter 100% do funcionamento em áreas consideradas mais sensíveis, como UPA, Samu, estações de tratamento de água e esgoto. Com a liminar, porém, o sindicato entende que poderá reorganizar a paralisação dentro do patamar de 70% em todos os setores. “Com a liminar da prefeitura agora nos dá condição. O servidor tem a segurança de poder parar. Se tem 10 servidores lá, 7 trabalham e 3 param”, afirmou. Ele admitiu que isso pode agravar a lentidão em alguns serviços, especialmente na saúde, onde, segundo relatou, já existe déficit de pessoal.
Na educação, a orientação, de acordo com o sindicalista, é que haja comunicação direta entre professores e famílias para informar sobre a adesão à greve em cada unidade e em cada dia. Ney ressaltou que o sindicato busca organizar a paralisação de forma responsável para reduzir prejuízos à população. Ainda assim, pediu compreensão dos moradores de São Carlos diante do momento de tensão. “A gente sabe que vai prejudicar um pouco, mas a gente está tentando fazer com a maior responsabilidade possível para que a população não sofra tanto as consequências”, disse.
Ao longo da entrevista, Ney também rebateu o argumento de que São Carlos estaria entre os municípios que mais concederam reajustes ao funcionalismo nos últimos anos. Segundo ele, parte dos percentuais apontados pela administração decorreu, na verdade, de recomposição de perdas anteriores, especialmente ligadas ao fim do 14º salário e do prêmio assiduidade. “O servidor não ganhou, ele teve uma reposição”, afirmou. Na visão do dirigente, a Prefeitura tem margem fiscal para avançar na negociação, já que, segundo os cálculos do sindicato, o comprometimento com a folha estaria hoje em torno de 44%, abaixo do limite prudencial de 51,3%. “Se o prefeito oferecer um aumento para nós, a gente vai chegar a 46%, não chega nem a 47%. E a prefeitura não está fazendo nem isso”, declarou.
O sindicalista também afirmou que a gestão municipal tem se limitado a dizer que não possui condições financeiras, sem, no entanto, apresentar de forma transparente os dados que sustentariam essa posição. “O sindicato apresenta dados e números. A gente vai com uma equipe técnica lá. Não inventando números. A gente apresenta e os números batem. Só que só fala: não posso, não vou, não tenho margem”, criticou. Para ele, a reabertura imediata da negociação seria suficiente para construir uma saída antes mesmo da audiência de conciliação marcada para o dia 16 de abril.
No encerramento, Ney reforçou o apelo à Prefeitura para que volte à mesa de negociação e evite que a solução fique exclusivamente nas mãos da Justiça. “Eu espero que reconsidere e que nos chame para conversar e que a gente possa chegar num determinante, não chegue no ponto de ter que ir para uma audiência e ficar à mercê de uma decisão da justiça que pode ser para um lado ou para o outro”, afirmou. Ele também pediu que os servidores permaneçam atentos às redes sociais do sindicato, onde novas orientações e eventual convocação de assembleia poderão ser divulgadas a qualquer momento.
A entrevista deixou evidente que, mais do que um embate salarial, o conflito envolve desgaste institucional, divergências sobre a condução das negociações e diferentes leituras sobre a capacidade financeira do município. Com serviços já afetados, liminar em vigor e audiência de conciliação marcada, os próximos dias tendem a ser decisivos para definir se São Carlos caminhará para um acordo ou para um agravamento ainda maior da greve no funcionalismo público.
Nesse momento, os servidores grevistas estão em manifestação defronte ao prédio do Paço Municipal, na rua Episcopal. Segundo informações, uma comissão da Prefeitura deve atender o Comitê Sindical dos servidores.


















