Foto: Instagram Pessoal
Por Paulo Mello
A decisão de Michelle Bolsonaro de deixar a presidência do PL Mulher, após a crise pública com Flávio Bolsonaro, é mais do que um episódio familiar. É um sinal político importante. A ex-primeira-dama comunicou a saída depois de se reunir com Valdemar Costa Neto e afirmou que pretende se dedicar integralmente aos cuidados do marido e da filha. O gesto ocorre logo depois de Michelle acusar Flávio de humilhá-la e desrespeitá-la em meio a divergências sobre os rumos do partido.
Na prática, a saída de Michelle abre uma pergunta delicada para o PL: quem, de fato, organiza o eleitorado feminino conservador daqui para frente? Ela era uma das principais pontes do bolsonarismo com mulheres evangélicas, lideranças locais e eleitoras que nem sempre se sentem representadas pelo tom mais duro da política tradicional. Ao deixar o comando do PL Mulher, Michelle tira da legenda uma vitrine importante justamente em ano eleitoral.
O episódio também mostra a dificuldade do bolsonarismo em funcionar sem Jair Bolsonaro como centro absoluto de comando. Flávio tenta se firmar como herdeiro político e pré-candidato à Presidência pelo partido, mas Michelle tem capital próprio, linguagem própria e relação direta com uma parte sensível da base conservadora. Quando esses dois polos entram em choque, a crise deixa de ser fofoca de bastidor e passa a afetar a estratégia eleitoral.
Há ainda um componente simbólico. Michelle sempre foi apresentada pelo PL como força de mobilização feminina, com discurso religioso, familiar e conservador. Ao sair dizendo que precisa cuidar do marido e da filha, ela preserva essa imagem, mas também marca posição. Não rompe totalmente com o campo político, mas se afasta de um cargo que a colocava no centro de uma disputa interna desgastante.
Para a direita, o risco é evidente: enquanto adversários organizam discurso, alianças e palanques, o principal grupo oposicionista expõe divergências em público. E política não perdoa desorganização. Eleitor pode até compreender conflitos internos, mas cobra direção, unidade e projeto. Sem isso, a força eleitoral vira ruído.
No fim, a saída de Michelle do PL Mulher revela uma direita diante de seu maior desafio: transformar carisma familiar em estrutura política estável. O bolsonarismo ainda tem força, militância e presença popular. Mas, sem coordenação clara, corre o risco de chegar à disputa dividido entre lealdades pessoais, ambições eleitorais e ressentimentos mal resolvidos. E, em política, quando a casa começa a brigar em público, os adversários nem precisam bater à porta.
(*) Paulo Mello é jornalista, apresentador do Primeira Página no Ar na São Carlos FM e Diretor Geral do portal Região em Destake























