PAULO MELLO
A política municipal é, antes de tudo, um exercício de convivência. Quando essa convivência se rompe no topo da gestão, o impacto é inevitável. A renúncia do vice-prefeito de Ibaté, Damião Sousa (PV), anunciada em vídeo nas redes sociais, escancara algo que muitas vezes fica nos bastidores: divergências internas também governam — ou desgovernam — uma cidade.
Ao afirmar que não se sentia confortável em permanecer no cargo e que não queria “receber dinheiro público sem contribuir”, Damião toca em um ponto sensível. A função de vice-prefeito, por si só, já carrega um desafio estrutural: depender do espaço concedido pelo titular. Quando há sintonia, o cargo pode ser estratégico. Quando não há, transforma-se em posição decorativa — e, politicamente, desgastante.
O agora ex-vice alega frustração com o ritmo da gestão e com a atuação de secretários. Não fez ataques pessoais ao prefeito Ronaldo Venturi (PSD), mas deixou claro que esperava mais protagonismo e agilidade. A mensagem é direta: faltou alinhamento e sobrou insatisfação.
Por outro lado, Damião faz questão de apresentar resultados. Lista recursos destinados à saúde, turismo, esporte e cultura, além de parcerias com a iniciativa privada. Ao fazer isso, constrói uma narrativa de entrega e reforça que sua saída não representa ausência de trabalho, mas desacordo de condução.
A presença da esposa no anúncio reforça o tom pessoal da decisão. A renúncia, segundo o casal, foi amadurecida em família. Esse detalhe humaniza o gesto, mas não diminui o peso político da escolha. Renunciar é sempre um ato forte — ainda mais quando ocorre no início de um mandato.
Resta saber como a Prefeitura irá reagir e, principalmente, como a cidade interpretará o episódio. Em política, versões disputam espaço. Para parte da população, a atitude pode soar como coerência. Para outros, como abandono.
O fato é que Ibaté perde um vice antes do fim do mandato e ganha um novo capítulo em sua história política recente. Se a gestão seguirá firme ou sentirá o abalo, só o tempo dirá. Mas uma coisa é certa: quando o vice sai antes da música acabar, a harmonia já estava comprometida.
(*) O autor é jornalista [Mtb 87176/SP], apresentador do Primeira Página no Ar da São Carlos FM e diretor geral do portal Região em Destake
















