
A Prefeitura de São Carlos iniciou nesta quarta-feira (19) uma articulação com universidades, centros de pesquisa e órgãos municipais para preparar a cidade diante dos possíveis efeitos de um super El Niño. A primeira reunião do Grupo de Trabalho em Mudanças Climáticas, realizada no Paço Municipal, colocou no centro do debate os impactos econômicos, ambientais e sociais que eventos extremos podem provocar e a necessidade de transformar conhecimento científico em um plano efetivo de prevenção e adaptação.
O grupo reúne pesquisadores da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), da Universidade de São Paulo (USP), da Embrapa Instrumentação e da Embrapa Pecuária Sudeste, além de representantes de secretarias municipais e do Serviço Autônomo de Água e Esgoto (SAAE). Entre as prioridades estão medidas para enfrentar enchentes, períodos prolongados de estiagem, ondas de calor, erosão, prejuízos à agricultura e impactos sobre a saúde da população.
Um dos integrantes do grupo, o professor Eduardo Mário Mendiondo, da Escola de Engenharia de São Carlos (EESC-USP), afirmou que o município possui uma concentração pouco comum de universidades e institutos de pesquisa, mas acumulou, ao longo das últimas sete ou oito décadas, problemas relacionados à degradação da água, do solo e da infraestrutura urbana.
Segundo o pesquisador, a intensificação da emergência climática abre uma oportunidade para que São Carlos amplie investimentos em mitigação e adaptação. Mendiondo sustenta que a ausência histórica de políticas voltadas aos chamados serviços ambientais também representa perda econômica para o município.“São Carlos perdeu de investir em serviços ambientais como política prioritária e isso se traduz hoje em não conseguir colocar na economia em torno de mais 6 bilhões de reais por ano”, afirmou.
De acordo com a estimativa apresentada pelo professor, esse potencial representaria um acréscimo superior a 40% em relação ao Produto Interno Bruto atual do município, calculado em aproximadamente R$ 14 bilhões. Para Mendiondo, enfrentar a mudança climática não deve ser encarado apenas como uma obrigação ambiental, mas também como uma estratégia de desenvolvimento econômico.
Ciência quer sair do diagnóstico para a execução
A discussão deverá ganhar dimensão nacional em setembro. Entre os dias 21 e 25, USP e UFSCar vão sediar o Encontro Nacional de Águas Urbanas e o Simpósio de Revitalização de Rios Urbanos, com participação prevista de especialistas brasileiros e estrangeiros. “Dessa maneira saímos de uma visão de somente levantar problemas ou criar conhecimento e partimos para uma agenda proativa de ação, de obra, de riqueza, de qualidade de vida”, disse Mendiondo.
O pesquisador Sílvio Crestana, da Embrapa Instrumentação, também defendeu que a articulação avance rapidamente para medidas concretas. Segundo ele, cenários científicos apontam para a possibilidade de ocorrência de um El Niño de elevada intensidade, com potencial para provocar diferentes tipos de eventos extremos.
Entre os riscos mencionados estão secas severas, chuvas concentradas, enchentes, erosão do solo, perdas de plantações e dificuldades para alimentação de rebanhos. As consequências, acrescentou, podem alcançar diretamente a população por meio do preço e da disponibilidade de alimentos, da saúde pública e do aumento das temperaturas.
Crestana propõe que o município trabalhe preventivamente com a criação de um “gabinete de risco”, responsável por acompanhar ameaças e antecipar respostas antes que situações extremas se transformem em crises. “Para evitar ou diminuir esses possíveis impactos negativos, uma das sugestões é que se crie um gabinete de risco, ao invés, por exemplo, de um gabinete de crise, que é o que normalmente se faz, porque a crise é algo que já aconteceu”, explicou.
Para o pesquisador, medidas tomadas na escala municipal podem produzir resultados mais rápidos e diretamente ligados à vida da população. “É onde uma dada mudança climática ou geopolítica impacta o cidadão naquele local, no emprego, no trabalho, na residência, na moradia, na saúde. Construir soluções locais é a melhor saída”, afirmou.
Arborização entra no combate às ilhas de calor
Durante a reunião, a diretora do Departamento de Gestão Ambiental e Climática da Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Bem-Estar Animal, Giovana Galetti, apresentou iniciativas já adotadas pela administração municipal.
Representando o secretário Júnior Zanquim, ela destacou o Plano de Arborização Urbana, elaborado a partir de um diagnóstico que identificou as regiões menos arborizadas da cidade e a relação dessas áreas com as chamadas ilhas de calor. “As ilhas de calor, as ondas de calor e até mesmo as ondas de frio podem ser minimizadas com o plantio de árvores”, afirmou.
A Secretaria de Meio Ambiente também trabalha na contratação de um Inventário de Gases de Efeito Estufa. O levantamento deverá identificar as principais fontes de emissões no município e servir de base para a formulação de políticas públicas e planos de redução e adaptação climática.
Enchentes colocam drenagem no centro da discussão
A capacidade de drenagem de São Carlos também foi apontada como uma das áreas mais sensíveis diante do aumento de chuvas intensas.
O gerente de Drenagem e Manejo de Águas Pluviais do SAAE São Carlos, Eduardo Casado, afirmou que os efeitos dos eventos extremos já são percebidos pela população, especialmente durante temporais que atingem a região central, historicamente afetada por problemas de alagamentos e enchentes.
Segundo Casado, o SAAE trabalha em duas frentes. A primeira envolve planejamento de médio e longo prazo, com estudos e projetos individualizados para as diferentes bacias hidrográficas do município. A segunda está relacionada a intervenções imediatas de manutenção.
Entre elas estão a limpeza de bocas de lobo e galerias, o desassoreamento de cursos d’água e ações para conter processos erosivos nos rios urbanos.
Município quer buscar recursos para obras de adaptação
O assessor do prefeito Netto Donato e pesquisador José Galízia Tundisi afirmou que a reunião desta quarta-feira representa apenas o início da articulação.
Uma nova reunião, mais ampla, está prevista para 14 de setembro e deverá reunir representantes da Prefeitura, UFSCar, USP e Embrapa especificamente para aprofundar os possíveis efeitos do super El Niño sobre São Carlos.
A intenção, segundo Tundisi, é utilizar os estudos e as discussões técnicas para estruturar um projeto de grande porte que possa ser apresentado à Caixa Econômica Federal em busca de financiamento. “A partir dessas discussões, pretendemos elaborar um projeto de grande porte para apresentar à Caixa Econômica Federal, que possui recursos disponíveis para ações relacionadas a esse grande El Niño, no sentido de promover adaptações no município em relação a enchentes, precipitações, secas e também aos impactos na saúde humana”, afirmou.
A proposta é reunir intervenções capazes de aumentar a resiliência do município diante de eventos climáticos extremos, incorporando obras de drenagem, prevenção de enchentes, segurança hídrica, arborização, controle de erosão e medidas relacionadas à saúde pública.
Articulação deve alcançar cidades da região
A discussão também poderá ultrapassar os limites de São Carlos. Tundisi informou que pretende convidar municípios vizinhos para participar do encontro previsto para setembro, ampliando a construção de estratégias climáticas em escala regional.
Nesta quinta-feira (20), o pesquisador participa de uma palestra destinada a representantes de 21 municípios ligados à Associação Paulista de Municípios, reunidos no Hotel Nacional.
A estratégia defendida pelo grupo é antecipar decisões enquanto ainda há possibilidade de prevenção. Em vez de responder apenas aos prejuízos depois de enchentes, secas ou ondas de calor, pesquisadores e gestores municipais pretendem construir um modelo permanente de avaliação de riscos, planejamento e investimento, transformando a adaptação climática em uma política de longo prazo para São Carlos.






















