PAULO MELLO
A edição desta terça-feira do programa Primeira Página no Ar, da São Carlos FM, recebeu o professor doutor José Galizia Tundisi, assessor especial da Prefeitura de São Carlos, que abordou temas estratégicos como abastecimento de água, planejamento urbano, meio ambiente e investimentos em ciência e tecnologia. Reconhecido internacionalmente, Tundisi também comentou sua trajetória acadêmica e alertou para os desafios futuros relacionados à segurança hídrica.
Logo no início da entrevista, o professor esclareceu que foi premiado em 2022 pela Sociedade Internacional de Limnologia, na Alemanha, com a medalha Naumann-Thienemann — sendo o primeiro latino-americano a receber a honraria. O reconhecimento veio, segundo ele, pela formação de pesquisadores e pelas contribuições ao estudo de sistemas aquáticos tropicais e subtropicais, com atuação em regiões como Amazônia, Rio Doce, Rio Tietê e diversas represas da América do Sul. “Formei muitos doutores e contribuí para o conhecimento dos sistemas tropicais”, destacou.
Ao analisar a situação hídrica de São Carlos, Tundisi foi categórico ao afirmar que o município possui uma condição privilegiada. “A qualidade da água é muito boa, tanto superficial quanto subterrânea. Estamos em uma cabeceira de bacia hidrográfica, o que favorece muito”, explicou. Segundo ele, o Serviço Autônomo de Água e Esgoto (SAAE) conta com equipe técnica qualificada e mantém forte integração com universidades como USP e UFSCar, o que fortalece o monitoramento e a inovação no setor.
Apesar do cenário positivo, o professor alertou para a necessidade de planejamento de longo prazo. Atualmente, São Carlos utiliza cerca de 800 litros por segundo de água subterrânea do Aquífero Guarani e outros 500 litros por segundo de fontes superficiais. “Nós não sabemos exatamente quanto ainda temos disponível no subsolo. Precisamos avaliar isso para garantir o abastecimento daqui a 20 ou 30 anos”, afirmou. Ele revelou que um projeto está sendo estruturado junto à FINEP para avançar nesse diagnóstico e no conceito de cidade inteligente e economia circular.
Tundisi também explicou que os episódios de falta de água registrados em bairros da cidade não estão ligados à escassez do recurso, mas sim a problemas operacionais. “Há perdas na rede que podem chegar a 20% ou 30%, o que é comum no Brasil. São situações pontuais, como vazamentos ou acidentes, que acabam interrompendo o abastecimento temporariamente”, disse. Segundo ele, a tendência é de redução dessas perdas com investimentos e manutenção contínua.
No cenário global, o professor demonstrou preocupação. Ele citou recente alerta de uma agência ligada à ONU sobre uma possível emergência hídrica mundial. “Estamos consumindo mais água do que a capacidade de reposição. Há pouca reutilização e muita contaminação, principalmente das águas superficiais”, afirmou. Para Tundisi, a situação é agravada pela falta de decisões políticas efetivas. “Os cientistas estudam, alertam, mas quem decide são os governos. E muitas vezes as decisões não acompanham a urgência do problema.”
Ao comentar a realidade brasileira, o especialista apontou falhas estruturais graves, como cidades que ainda não tratam esgoto e a existência de cerca de dois mil municípios com lixões a céu aberto. Ele citou casos como o de Borborema, onde a contaminação do Rio Tietê tem afetado a pesca, o turismo e a saúde da população. “Isso impacta diretamente a economia e a qualidade de vida”, ressaltou.
Tundisi também criticou o que chamou de confusão entre modernização e desenvolvimento no Brasil. “Investir em trem-bala enquanto falta tratamento de esgoto é um exemplo claro disso. Desenvolvimento é melhorar a qualidade de vida, reduzir doenças e garantir serviços básicos”, afirmou, citando reflexões do economista Celso Furtado.
Sobre a atuação da ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, o professor avaliou que há boas intenções, mas falta maior assertividade. “É preciso encontrar o equilíbrio entre desenvolvimento e preservação ambiental. Isso ainda não foi plenamente alcançado”, analisou.
No âmbito municipal, Tundisi destacou que a atual gestão do prefeito Neto Donato tem priorizado o planejamento como eixo central. “Estamos consolidando o presente e planejando o futuro. Esse é o foco”, disse. Ele também relembrou a criação de cerca de 20 parques urbanos na cidade e defendeu o fortalecimento de políticas que integrem crescimento urbano e conservação ambiental.
Ao final da entrevista, o professor falou sobre sua trajetória entre a academia e o setor público. Ex-presidente do CNPq e fundador da Secretaria de Ciência e Tecnologia de São Carlos, ele afirmou que sua atuação sempre foi guiada pelo interesse coletivo. “Não pertenço a partido político. Trabalho para melhorar a qualidade de vida da população”, destacou.
Tundisi ainda revelou novos projetos em andamento, como o desenvolvimento de uma cadeia produtiva em Torrinha e a criação de uma empresa voltada à produção de algas para fertilizantes, biodiesel, ração animal e crédito de carbono. Para ele, o caminho para o futuro passa necessariamente por inovação. “Educação, ciência, tecnologia e desenvolvimento são essenciais. Não há outra saída para o país”, concluiu.



















