PAULO MELLO
Da redação
Em entrevista ao programa Primeira Página no Ar, da São Carlos FM (107,9 FM), a diretora de Vigilância em Saúde de São Carlos, Denise Martins Gomide, fez um balanço detalhado da situação epidemiológica do município, com foco especial na dengue, vacinação e ações de prevenção previstas para 2026. Segundo ela, o ano de 2025 foi marcado por um cenário de epidemia, com números expressivos e desafios que exigem atuação permanente do poder público e, sobretudo, o engajamento da população.
De acordo com Denise, São Carlos registrou 20.429 casos de dengue e 24 óbitos em 2025, com maior impacto entre idosos e pessoas com comorbidades. A diretora ressaltou que, apesar da gravidade dos números, o trabalho de prevenção não foi interrompido em nenhum momento pela Secretaria Municipal de Saúde. “A dengue é um desafio contínuo de saúde pública. Mesmo nos períodos de maior incidência, as ações de campo, orientação e eliminação de criadouros seguiram sendo realizadas”, afirmou.
Um dos pontos mais críticos destacados na entrevista foi o elevado número de focos do mosquito Aedes aegypti encontrados dentro das residências. Segundo relatórios dos agentes de combate a endemias, entre 80% e 90% das casas visitadas apresentam algum tipo de criadouro. “Em algumas semanas, chegamos a encontrar foco em todas as dez residências vistoriadas”, alertou Denise, reforçando que a eliminação da água parada é a principal estratégia para reduzir a transmissão.
Ela explicou ainda que fatores climáticos, como chuvas intensas e temperaturas elevadas, favorecem a proliferação do mosquito, cujo ovo pode sobreviver por até 450 dias em ambiente seco. Com a volta das chuvas, em apenas sete a dez dias o mosquito atinge a fase adulta, tornando-se transmissor da doença.
Parceria com limpeza urbana e coleta diária de inservíveis
A diretora destacou a parceria com a Secretaria de Conservação e Qualidade Urbana, que desde o início do ano mantém um caminhão de grande porte, com equipe fixa, recolhendo diariamente materiais inservíveis identificados nas visitas domiciliares. “Antes, essas ações ficavam restritas a mutirões. Em 2025 percebemos que o impacto é muito maior quando a coleta é diária”, explicou. A iniciativa, semelhante ao “cata-bagulho” adotado em outros municípios, tem sido considerada fundamental no enfrentamento à dengue.
Denise chamou atenção para um dos principais focos encontrados atualmente: vasilhas de água de animais domésticos. Segundo ela, não basta apenas trocar a água. “Os ovos ficam grudados nas laterais do recipiente. É preciso lavar com esponja e sabão, esfregando as bordas, senão o risco permanece”, orientou.
Outro ponto abordado foi o monitoramento de piscinas, inclusive em escolas e imóveis desocupados. Com o uso de drones, a Vigilância identificou mais de 80 piscinas sem tratamento adequado no município em 2025. Todas foram notificadas e, quando necessário, receberam aplicação de pastilhas larvicidas. Proprietários que não regularizam a situação estão sujeitos a multas.
A mobilização social, segundo Denise, passa também pelas escolas. Além das ações educativas tradicionais, a Secretaria implantou um projeto teatral sobre o combate ao mosquito da dengue, apresentado inicialmente em 12 escolas a partir de setembro de 2025. “A receptividade foi excelente. Em 2026, vamos ampliar para toda a rede municipal”, disse. Para ela, as crianças são agentes multiplicadores: “Elas aprendem e cobram dos pais, avós e responsáveis dentro de casa”.
Vacinação contra dengue, covid e influenza
Durante a entrevista, Denise detalhou a situação vacinal do município. A vacina contra a dengue está disponível para adolescentes de 10 a 14 anos, conforme orientação do Ministério da Saúde, mas a cobertura ainda é baixa: 46% para a primeira dose e apenas 23% para a segunda, que é essencial para a eficácia do imunizante.
Ela também comentou sobre a chegada da vacina Butantan-DV, de dose única e produção nacional, que começará a ser aplicada em profissionais de saúde a partir de fevereiro. São Carlos está incluída na estratégia.
Em relação à covid-19, Denise informou que, apesar da queda nos casos, a doença não foi erradicada. Em dezembro de 2025, o município registrou 96 casos e um óbito, fechando o ano com cinco mortes. A cobertura de reforço vacinal está em apenas 24,69%, considerada muito baixa. Já a vacina contra a influenza atingiu 54,6% de cobertura, distante da meta de 90%, mesmo após o registro de 16 óbitos por gripe em 2025.
Para quem perdeu ou não lembra da carteira de vacinação, Denise tranquilizou: todas as doses aplicadas nos últimos anos estão registradas em sistema nacional, acessível pelo CPF em qualquer unidade de saúde. Quem tiver carteiras antigas pode levá-las para transcrição no sistema. “Ninguém deixa de ser vacinado por não ter comprovante”, explicou.
Canais de contato e denúncias
Ao final da entrevista, a diretora reforçou os canais de atendimento da Vigilância em Saúde e do Controle de Zoonoses e Endemias, que agora funcionam pelos telefones (16) 3419-8203 e (16) 3419-8206. A sede fica na Rua Conde do Pinhal, 2161, no Centro, em frente à Caixa Econômica Federal.
Denise concluiu destacando que o combate às endemias depende de um esforço coletivo. “O poder público faz a sua parte, mas a população precisa fazer a dela. Só assim teremos uma cidade mais saudável e segura para todos”.
Assista a entrevista na íntegra:














