PAULO MELLO
Sem discutir o mérito do que aconteceu, onde todos já sabem e tem suas próprias opiniões, a saída do jornalista e radialista José Carlos Magdalena da EP FM, anunciada por ele próprio na manhã desta sexta-feira, 10, não é apenas uma notícia sobre a mudança de rota de um profissional conhecido. Pode ser, sim, o sinal de encerramento de um ciclo importante no jornalismo regional. Quando uma voz forte do rádio deixa o microfone, não sai apenas um comunicador. Sai também um estilo, uma presença e, muitas vezes, uma forma de fazer companhia ao ouvinte.
Magdalena pertence a uma geração de comunicadores que ajudou a dar identidade ao rádio do interior. Em cidades como Araraquara e em toda a região, o rádio nunca foi apenas veículo de informação. Foi hábito, trilha sonora da rotina, companhia de cozinha, de oficina, de comércio, de estrada e de sala de espera. Era o rádio ligado cedo, antes mesmo do café ficar pronto. Era a notícia chegando junto com o cheiro do almoço. Era a opinião forte, a vinheta conhecida, a voz que o ouvinte identificava em segundos.
Por isso, esse episódio mexe também com a memória afetiva de muita gente. Eu mesmo me lembro da minha falecida avó mudando o dial pela casa, entre uma tarefa e outra, ouvindo nomes que marcaram época. Rubens Maciel, com seu jornalismo policial. Gerson Marcos. Afonso Celso Gobato. Baby Soares, com o inesquecível “Programa da Baby”. Gerson Edson Toledo Piza, o Juquita, no Debate Intersom. Eram profissionais que, cada um à sua maneira, ocupavam espaço não só na programação, mas na vida das pessoas. Faziam parte da rotina doméstica e do imaginário popular.
O rádio regional sempre teve esse poder: transformar comunicadores em figuras familiares. Não porque o público os conhecesse pessoalmente, mas porque suas vozes atravessavam o cotidiano com uma intimidade rara. Havia credibilidade, presença e constância. Em muitos lares, o rádio tinha mais força do que a televisão, justamente por permitir que a vida seguisse enquanto a informação acontecia. O ouvinte lavava a louça, fazia comida, varria a casa, abria a loja, e o rádio seguia ali, falando.
É justamente nesse ponto que a saída de Magdalena também abre uma discussão inevitável sobre o tempo em que vivemos. As redes sociais mudaram tudo. Mudaram a velocidade, o tom, a exposição, a reação do público e até a maneira como jornalistas e radialistas lidam com a própria imagem. Hoje, muitos profissionais já não dependem apenas da emissora para se comunicar. Eles podem migrar para plataformas próprias, falar sem intermediação, construir audiência por conta própria e transformar opinião em produto direto, como é o caso do também conhecidíssimo jornalista Antônio Carlos Leite, ou apenas Leite, com seu “A Hora do Leite”, que era apresentado na extinta Rádio Realidade AM e hoje, ao lado do filho, nosso querido Leitão apresenta nas redes sociais. Isso amplia a liberdade, sem dúvida.
O rádio, mesmo com opinião, sempre exigiu uma certa liturgia. Havia regra, freio, mediação, responsabilidade compartilhada. As redes, ao contrário, estimulam o impulso, a reação instantânea, a frase de efeito e o conflito. Não por acaso, muita gente hoje sai do estúdio e vai para a internet como quem troca de arena. O problema é que nem sempre essa transição preserva o melhor da comunicação. Às vezes, ela valoriza mais o barulho do que o conteúdo.
Por isso, o caso de Magdalena não deve ser visto apenas como uma saída individual. Ele ajuda a simbolizar uma transição maior: a do rádio de referência para a comunicação fragmentada; da voz institucional para a opinião em canal próprio; do comunicador moldado por uma emissora para a figura pública que fala diretamente com seu público, sem filtro e sem anteparo. Isso pode ser libertador, mas também pode ser um empobrecimento, dependendo do caminho que se escolha.
Ainda não há confirmação oficial sobre os próximos passos do jornalista. Pode ser que continue na área. Pode ser que retorne ao rádio em outro formato. Pode ser que encontre nas redes um novo palco. Tudo isso faz parte. Mas, independentemente do que venha a acontecer, o episódio já produziu um efeito concreto: reacendeu a lembrança de um rádio que marcou gerações e levantou a pergunta sobre o que estamos perdendo quando essas vozes históricas se calam nos estúdios.
Talvez o maior ponto dessa história seja justamente esse. Mais do que discutir uma saída, estamos falando de uma mudança de era. E mudanças de era quase sempre doem porque nos obrigam a perceber que parte da nossa memória também está ficando para trás. O rádio continua vivo, é verdade, mas já não ocupa o mesmo lugar simbólico de antes. Quando um nome forte sai de cena, a sensação não é só de ausência profissional. É de silêncio afetivo.
No fim, fica a certeza de que o rádio regional, com suas vozes históricas, ajudou a contar a vida de muita gente. Inclusive a nossa.



















