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Ana Carolina Oliveira defende acolhimento a vítimas e cobra ação efetiva contra violência

Ela falou sobre violência contra mulheres e crianças, falhas na aplicação das leis, papel dos homens no enfrentamento ao problema e transformação da dor em missão pública
Redação 29 de maio de 2026
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Paulo Mello, da redação

A vereadora paulistana Ana Carolina Oliveira (Podemos), mãe de Isabella Nardoni, participou nesta sexta-feira (29), do programa Primeira Página no Ar, da São Carlos FM, após palestra realizada em São Carlos sobre violência contra crianças, mulheres e o enfrentamento ao abuso e ao feminicídio. A entrevista contou também com a participação do presidente da Câmara Municipal, Lucão Fernandes (PP), que destacou a importância da presença da parlamentar na cidade e afirmou que o Legislativo tem buscado ampliar o debate sobre políticas públicas de proteção. Segundo ele, a palestra já começou a gerar reflexos, com relatos de igrejas e escolas tratando do tema após o evento.

Durante a entrevista, Ana Carolina afirmou que se sente honrada por transformar uma história marcada pela dor em uma mensagem de prevenção, acolhimento e esperança. Ela disse que a tragédia vivida por sua família a colocou durante muito tempo em um lugar de tristeza, mas que hoje enxerga um propósito maior na possibilidade de falar com outras pessoas. Para a vereadora, levar esse debate a diferentes cidades é uma forma de fortalecer a rede de proteção e mostrar que a sociedade não pode se omitir diante da violência. “Quando você entende o propósito de uma história, não é sobre aquilo que aconteceu. É óbvio que essa tragédia entrou na minha vida, me transformou, me deixou num lugar de tristeza. Mas eu acredito que isso é muito maior”, afirmou.

Um dos pontos mais fortes da entrevista foi o relato de que uma mulher vítima de violência doméstica teria se sentido encorajada a pedir ajuda após a palestra em São Carlos. Segundo Ana Carolina, a mulher estava no evento quando identificou seu próprio agressor, que acabou sendo retirado do local com apoio policial. A vereadora disse que só soube da situação depois, pois estava no palco, mas considerou o episódio uma demonstração concreta da importância de se falar abertamente sobre o tema. Para ela, uma palestra não deve ser vista como formalidade, mas como instrumento capaz de provocar decisões e salvar vidas.

Ana Carolina também ressaltou o papel da imprensa na abordagem do assunto. Ao agradecer o espaço concedido pela São Carlos FM, ela afirmou que temas como violência contra a mulher e abuso contra crianças ainda são tratados como tabu, o que dificulta a denúncia e o acolhimento das vítimas. Segundo a parlamentar, quando uma emissora abre o microfone para esse tipo de discussão, a mensagem chega às casas, aos carros, ao transporte público e a pessoas que, muitas vezes, sofrem em silêncio. “A partir do momento que você deixa essa luz aberta, esse microfone aberto, para que o tema entre no rádio, na casa, no caminho, a mensagem chega. E isso encoraja mulheres, crianças e famílias a fazerem suas denúncias”, disse.

A vereadora fez ainda um chamado direto aos homens. Para Ana Carolina, homens que não praticam violência precisam assumir também a responsabilidade de conversar com outros homens sobre respeito, agressão, ameaça e feminicídio. Ela afirmou que não basta cobrar apenas das mulheres uma reação diante da violência, já que muitas vítimas vivem sob medo, dependência emocional, dependência financeira ou ameaça constante. Na avaliação da parlamentar, homens em posições de liderança, como comunicadores, vereadores e representantes públicos, têm papel decisivo na mudança de comportamento social.

Questionada sobre a eficiência das leis, Ana Carolina fez uma distinção entre a existência das normas e sua aplicação prática. Segundo ela, leis existem, mas há brechas e interpretações que dificultam a proteção efetiva das vítimas. A vereadora citou o caso de mulheres com medida protetiva que continuam sendo perseguidas por agressores. Para ela, a medida funciona quando o agressor tem medo de punição, mas perde força diante de alguém que não teme ser preso ou responsabilizado. “A medida protetiva funciona para quem tem medo, para o homem que tem medo de ser preso. Esse cara, pelo visto, não tem medo de nada”, afirmou.

Ana Carolina defendeu que a sociedade precisa parar de julgar mulheres que denunciam agressões e depois recuam. Segundo ela, muitas vítimas estão em sofrimento psicológico profundo e permanecem no ciclo da violência por medo das consequências, por dependência financeira, pelos filhos ou por não acreditarem que conseguirão sair daquela situação. A vereadora criticou frases como “gosta de apanhar” ou “fica porque quer”, afirmando que esse tipo de julgamento abandona a vítima justamente quando ela mais precisa de apoio. “Ela não está ali porque quer ou porque gosta. Ela está ali porque está em sofrimento”, declarou.

Na avaliação da parlamentar, o agressor que pratica violência contra uma mulher tende a repetir o comportamento em outros relacionamentos, caso não seja responsabilizado. Ela afirmou que a violência não termina necessariamente com o fim de uma relação, pois o agressor pode procurar outra vítima e reiniciar o ciclo. Para Ana Carolina, o enfrentamento exige aplicação real da lei, acolhimento às vítimas e punição adequada aos autores. “O agressor de uma é o agressor de todas. O abusador de uma é o abusador de vários”, afirmou.

Lucão Fernandes também destacou o papel da Câmara Municipal de São Carlos no fortalecimento dessa pauta. Durante a entrevista, foi lembrado que o Legislativo realizou ações voltadas ao enfrentamento da violência contra a mulher, inclusive com eventos públicos que deixaram de ter apenas caráter comemorativo para abordar a proteção das vítimas. Ana Carolina elogiou a iniciativa e afirmou que a existência de estruturas como a Procuradoria da Mulher e a Procuradoria da Criança dentro dos legislativos representa uma ferramenta importante de apoio à população.

Ao falar sobre sua atuação como vereadora na cidade de São Paulo, Ana Carolina afirmou que seu gabinete já ultrapassou 1.200 atendimentos relacionados à violência contra crianças e mulheres em menos de um ano e meio de mandato. Ela classificou o número como assustador e disse que, ao mesmo tempo em que mostra a confiança das vítimas no trabalho realizado, também revela a gravidade do problema. Segundo a parlamentar, há ainda muitos casos que permanecem invisíveis, sem denúncia e sem acolhimento.

A dor pela morte da filha também foi abordada durante a entrevista. Ana Carolina afirmou que a dor de mãe não desapareceu, mas se transformou. Ela disse que não é a mesma mulher desde 29 de março de 2008, data da morte de Isabella, e atribuiu sua caminhada à fé, à família, à terapia e ao entendimento de que sua história passou a tocar outras vidas. “Hoje eu entendo que não é sobre uma tragédia, é sobre o que eu vivi com a minha filha, é sobre o que essa história transformou vidas”, declarou.

A vereadora também foi questionada sobre a possibilidade de disputar um cargo maior nas eleições deste ano. Filiada ao Podemos, Ana Carolina confirmou que recebeu convite da deputada federal Renata Abreu, presidente nacional do partido, mas afirmou que ainda não tomou decisão. Segundo ela, a possibilidade está sendo analisada com responsabilidade, pois envolve não apenas a vida pública, mas também sua estrutura familiar e pessoal. “Tenho analisado com muita responsabilidade, não dei fechado em nada ainda”, afirmou.

Ao ser perguntada se a Justiça trouxe paz, Ana Carolina disse que o tema é relativo. Para ela, a condenação dos responsáveis pela morte da filha trouxe algum conforto, mas não encerrou a dor. A parlamentar lembrou que, após 18 anos, continua falando sobre Isabella e sobre outras vítimas, enquanto os condenados já deixaram a prisão. “A Justiça traz uma paz para o coração, mas ela não acaba com a sua dor e com o que você viveu”, afirmou.

No encerramento da entrevista, Ana Carolina voltou a pedir empatia, acolhimento e atenção aos sinais dados por mulheres e crianças em situação de violência. Ela defendeu que a sociedade não desista das vítimas e sugeriu que o tema seja tratado de forma permanente, inclusive com pautas direcionadas aos homens. “As crianças dão sinais, as mulheres dão sinais. O que mais importa é a gente não desistir da vida. As vidas importam e elas valem muito”, concluiu.

 

 

 


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