PAULO MELLO
A entrevista concedida pela reitora da UFSCar (Universidade Federal de São Carlos), Ana Beatriz de Oliveira, e pelo secretário municipal de Saúde de São Carlos, Leandro Pilha, ao programa Primeira Página no Ar, da São Carlos FM, nesta terça-feira (07, escancarou um momento de forte aproximação entre a universidade federal e a Prefeitura, com reflexos diretos na saúde pública do município. Em um tom de alinhamento raro entre academia e administração municipal, os dois detalharam uma série de ações que, se confirmadas no ritmo anunciado, podem reposicionar São Carlos como polo regional em serviços especializados, com destaque para a ampliação da reabilitação, o fortalecimento do Hospital Universitário (HU-UFSCar) e a discussão sobre a implantação de uma maternidade de alta complexidade.
Logo no início da entrevista, Ana Beatriz ressaltou a importância da recente visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a São Carlos, classificando o momento como um reconhecimento ao papel da universidade e da rede pública de saúde. Entre os destaques, ela citou a inauguração da ala de hemodiálise do HU-UFSCar, que deve reduzir o deslocamento de pacientes que hoje precisam buscar tratamento em outras cidades. “Os pacientes que precisavam viajar e ir para outros municípios para fazer o seu tratamento, vão poder agora fazer aqui em São Carlos”, afirmou. A reitora ainda observou que o serviço contará também com diálise peritoneal, modalidade que poderá ser feita em casa, oferecendo mais autonomia e melhor qualidade de vida aos pacientes.
Implatação do CER
Outro anúncio tratado como central foi a reforma da Unidade Saúde Escola (USE) da UFSCar para implantação do Centro Especializado de Reabilitação, o CER, em parceria com a Prefeitura. Ana Beatriz afirmou que o projeto só avançou graças à abertura da administração municipal. “Esse investimento que foi anunciado só foi possível pela abertura da prefeitura para esse trabalho conjunto”, declarou, agradecendo nominalmente ao prefeito Netto Donato (PP) e ao secretário Leandro Pilha. Pela proposta apresentada, a estrutura já existente dentro do campus será aproveitada e ampliada, o que, na avaliação dos entrevistados, evita desperdício de dinheiro público e acelera a oferta de um serviço de maior robustez.
Leandro Pilha reforçou essa linha de raciocínio ao dizer que não faria sentido o município investir na construção de uma nova estrutura se já existe uma unidade preparada dentro da universidade. Segundo ele, a estratégia será contratar o serviço em um espaço já consolidado e tecnicamente qualificado. O secretário destacou que a unidade da UFSCar possui cerca de 4.100 metros quadrados e deverá realizar 3.763 procedimentos por mês no âmbito do convênio previsto, todos referenciados pelo SUS. “Não tem lógica o município realizar uma estrutura, se já tem uma, se a gente pode melhorar”, afirmou. Ele também enfatizou que a cidade poderá deixar de enviar pacientes para outros municípios em casos que poderão ser absorvidos localmente, como determinadas frentes da fisioterapia, fonoaudiologia e até produção de órteses e próteses.
A reitora detalhou que a universidade tenta concluir a licitação ainda antes do defeso eleitoral, cujo marco mencionado na entrevista é 4 de julho. O prazo estimado para reforma completa da unidade e implantação total dos serviços é de cerca de dois anos. Ainda assim, ela revelou a possibilidade de um investimento adicional do Ministério da Saúde para antecipar parte da ampliação dos atendimentos já no segundo semestre, dependendo dos trâmites burocráticos. Mais do que instalar o CER, o plano é incorporar linhas ambulatoriais de cuidado em reabilitação, aproveitando a tradição da UFSCar em áreas como fisioterapia, terapia ocupacional, psicologia, enfermagem e gerontologia. “O que vai ser entregue para a população é muito mais do que seria se o projeto fosse feito no formato original”, resumiu.
Um dos trechos mais relevantes da entrevista foi justamente quando Ana Beatriz explicou que a atual Unidade Saúde Escola já presta serviços à população, mas hoje depende fortemente da atuação de estudantes e professores. Com a nova modelagem, haverá profissionais contratados exclusivamente para os atendimentos, permitindo funcionamento contínuo, inclusive em períodos de férias acadêmicas ou eventuais paralisações. “O atendimento vai ser feito de janeiro a janeiro”, disse. Na prática, o que se desenha é uma transição de uma estrutura acadêmica assistencial para uma unidade com perfil mais permanente e robusto dentro da rede pública.
No campo do Hospital Universitário, a hemodiálise foi tratada como uma conquista concreta e imediata. Leandro Pilha informou que hoje 36 pacientes ainda são encaminhados para Araraquara e Matão para tratamento e considerou injusto manter esse deslocamento diante do desgaste físico envolvido. Segundo ele, a nova ala começará com 12 cadeiras, com possibilidade de expansão para 24, caso haja ampliação dos turnos. Para o secretário, o serviço representa um passo decisivo para regionalizar o atendimento e reduzir sofrimento de pacientes e familiares. “Hemodiálise é o caminho que a gente precisa para o HU, vai somar”, afirmou.

Maternidade no HU-UFSCar
Também entrou em pauta a discussão sobre uma maternidade no Hospital Universitário, tema que exige mais cautela. Ana Beatriz foi cuidadosa ao esclarecer que não há implantação imediata confirmada, mas sim a abertura de um canal de diálogo junto ao Ministério da Saúde. A proposta em estudo seria de uma maternidade de atenção quaternária, voltada a casos de alta complexidade e também à formação de profissionais da saúde. Ela informou que a infraestrutura exigiria investimento em torno de R$ 9 milhões, valor considerado administrável, mas ponderou que o principal desafio está no custeio e na sustentabilidade do serviço ao longo do tempo. A reitora lembrou ainda que São Carlos já possui maternidade instalada e, por isso, defendeu diálogo com a Santa Casa para evitar sobreposição de estruturas. “A ideia é que a gente faça, de fato, essa conversa para chegar no melhor lugar para todos e todas”, afirmou.
Leandro Pilha seguiu a mesma linha e lembrou que o município registra cerca de 200 nascimentos por mês, número que, segundo ele, não comporta decisões improvisadas ou estruturas duplicadas sem planejamento. O secretário defendeu integração entre HU e Santa Casa não só na maternidade, mas em outras frentes de média e alta complexidade. Ao comentar o pedido feito pelo prefeito ao presidente Lula para reforço no repasse ao hospital, Pilha mencionou um déficit de R$ 1,135 milhão no teto MAC, usado para média e alta complexidade, e argumentou que o caminho mais racional é fortalecer estruturas já existentes, como a pediatria do HU, em vez de criar serviços paralelos.
Outros investimentos
A entrevista também trouxe um panorama sobre outros investimentos em andamento na UFSCar. Ana Beatriz lembrou que a universidade foi contemplada com nove obras no novo PAC voltado às instituições federais e afirmou que todas já estão em andamento. Um dos símbolos mais visíveis dessa retomada, segundo ela, é o prédio inacabado na entrada do campus de São Carlos, cuja estrutura estava parada desde 2014 e agora voltou a receber intervenções. Ao mesmo tempo, a reitora reconheceu passivos importantes de infraestrutura, como telhados antigos, infiltrações e problemas de acessibilidade em prédios construídos em outra época, sem atenção adequada à mobilidade. A avaliação dela é que ainda há um déficit histórico de investimento, mas que o atual momento representa uma virada.
Na reta final da entrevista, Ana Beatriz ainda mencionou um novo projeto articulado com a Prefeitura para a área do lago da UFSCar, tratado como barragem de contenção de água existente desde os anos 1950. Segundo ela, o projeto está pronto e será apresentado ao conselho universitário, com perspectiva de busca conjunta de recursos no Ministério das Cidades para ações relacionadas a enchentes e à conexão da drenagem da universidade com a bacia hidrográfica municipal. A fala reforçou uma ideia que atravessou toda a conversa: a de que universidade e poder público precisam trabalhar como parceiros permanentes, e não como estruturas isoladas.
Ao encerrar a participação, a reitora destacou que representa uma equipe de mais de 50 gestores distribuídos entre os campi e unidades da UFSCar, e reiterou que a instituição segue “de portas abertas” para o trabalho conjunto. Já Leandro Pilha resumiu o espírito da entrevista ao defender que boas iniciativas não podem ser interrompidas por vaidade política. “Nunca parar uma situação boa por causa de ciúmes que o outro começou. Isso aí é pegar dinheiro público e jogar no ralo”, afirmou. A frase sintetiza o tom do encontro: mais do que anúncios pontuais, o que se tentou vender ao ouvinte foi a imagem de uma nova fase de cooperação institucional, com potencial para deixar efeitos duradouros na saúde de São Carlos e de toda a região.


















