A popularização dos medicamentos à base de semaglutida — as chamadas canetas emagrecedoras — está redefinindo o que muitos brasileiros entendem por saúde. Depois de alcançar a perda de peso desejada, uma parcela crescente de usuários se depara com uma constatação incômoda: o emagrecimento não eliminou o estresse, a ansiedade, o cansaço crônico nem a sensação de viver no limite.
É o que observa a psiquiatra Anna Paola Chiarelli, de São Carlos. Para ela, não se trata de coincidência. “Muitas vezes, deslocamos nossa insatisfação emocional para objetivos mais concretos e aparentemente mais fáceis de alcançar, como perder peso ou mudar de emprego. Só que, quando essas metas são atingidas, a pessoa percebe que o desconforto continua ali”, diz. Segundo a médica, isso ocorre porque as causas costumam ser mais profundas — ligadas à forma como cada um se relaciona consigo mesmo, com suas emoções e com a própria vida.
O fenômeno não é isolado. Chiarelli nota um aumento consistente na busca por desaceleração, equilíbrio emocional e saúde integral. “O emagrecimento pode trazer benefícios importantes, inclusive para a autoestima e para a saúde física. Mas ele não resolve questões emocionais mais profundas. Por isso, muitas pessoas começam a perceber a necessidade de cuidar também do sono, das relações, da saúde mental e da qualidade de vida como um todo”, afirma.
Do peso ao bem-estar — um novo perfil de hóspede
Esse deslocamento de prioridades chegou a transformar inclusive o perfil de frequentadores do SPA Água Santa, em Descalvado, a cerca de 200 km da capital paulista. Com quase três décadas de funcionamento, o espaço passou a receber um público diferente nos últimos anos. A empresária Fernanda Pozzi, que comanda o local, estima que a busca por saúde, descanso e qualidade de vida já responde por cerca de metade da procura de hóspedes.
“A popularização das cirurgias bariátricas e, mais recentemente, das canetas emagrecedoras mudou bastante o perfil de quem nos procura. Hoje, muitas pessoas conseguem atingir a perda de peso que desejavam — o que é positivo. Mas percebem que isso não resolve o estresse, o excesso de telas ou o esgotamento profissional. Então passaram a focar mais em saúde e bem-estar”, explica.
Fernanda conta que é comum ver hóspedes se surpreendendo com experiências simples. “Muitos ficam impressionados com coisas básicas, como ouvir pássaros, caminhar ao ar livre ou simplesmente ficar em silêncio. Esse contato com a natureza tem um impacto muito forte para quem vive uma rotina extremamente acelerada.”
A programação do spa inclui yoga, hidroginástica, meditação, mobilidade, caminhadas e beach tennis. A empresária acredita que o prazer é o elemento-chave para que mudanças de hábito se sustentem. “Muita gente chega aqui sem nunca ter feito hidroginástica ou yoga e acaba descobrindo atividades que leva para a vida. Quando existe prazer, o cuidado deixa de ser obrigação.”
Ciência confirma o que a intuição já dizia
Para a psiquiatra, os hábitos ligados ao bem-estar funcionam como prevenção em saúde mental — antes mesmo que quadros mais graves se instalem. “Aquilo que nossas avós apontavam como benéfico hoje tem comprovação científica. A atividade física costuma ser um dos primeiros pilares da mudança de estilo de vida, porque acaba puxando os outros hábitos. Além dos benefícios físicos, o exercício traz sensação de bem-estar, prazer e realização”, ressalta Chiarelli.
Ela também chama atenção para o papel das relações humanas nesse equilíbrio. “Relações que promovem acolhimento e pertencimento são fundamentais para a saúde emocional. Ao mesmo tempo, reconhecer vínculos desgastantes e se distanciar deles também faz parte do cuidado com a saúde mental.”
No spa, esse aspecto se manifesta de forma concreta. Fernanda Pozzi lembra que hóspedes chegam exaustos da correria e do excesso de estímulos — e frequentemente saem com amizades construídas durante a estada. “Já tivemos até padrinhos de casamento que se conheceram aqui. Isso mostra o quanto o cuidado com a saúde também passa pelas relações humanas.”





















